O CoronaVírus chinês vai atacar o nosso Agro?

O CoronaVírus chinês vai atacar o nosso Agro?

É sempre arriscado tentar encontrar uma resposta curta para realidades complexas e dinâmicas. Mas, se tivermos que escolher entre ‘sim’, ‘talvez’ e ‘não’ para avaliar essa questão penso ser o mais adequado optar por ‘não’. E quais os argumentos que justificam essa afirmação? São múltiplos e temos que ir por partes.

É verdade que o chamado Covid-19 surgiu nas regiões rurais do interior da China. Assim, uma primeira conclusão poderia ser que nossos produtores rurais seriam destinos natos para a propagação dessa epidemia. No entanto, convém destacar as diferenças entre as realidades da China com clima temperado e o nosso país tropical. O vírus, parece, gosta mais do frio do que do calor.

Um segundo ponto importante e a estrutura econômica e a distribuição geográfica que são bem diferentes entre os dois países. A China com 9,6 mi km2 e uma população de 1,4 bi, não obstante a forte industrialização das últimas décadas, continua com 40% dos seus cidadãos vivendo e trabalhando no campo. A grande maioria dessas famílias rurais operam como nossos avós. Ou seja, produzem em terras pequenas, envolvendo a família toda e criando vacas, porcos e aves além de plantar milho e hortaliças. Trata-se de um ambiente com alta concentração da população e baixo nível de sanidade. Sabemos da história que esse ambiente favorece o surgimento e o espalhamento de todo tipo de doenças.

O Brasil com 8,5 mi km2 e uma população de 210 mi habitantes concentra apenas 15% na área rural. Comparando a densidade populacional que na China registra 140 habitantes por 1km2 e no Brasil um pouco mais de 20 hab/km2 fica evidente que aqui tem mais espaço, tanto para pessoas como para animais. Essa situação é decisiva, lembrando que a proximidade favorece a difusão de doenças e pragas. Podemos concluir que, se o vírus chegar no Brasil em dimensão preocupante, afetaria mais as aglomerações urbanas e menos o campo. Isto deixa prever que o produtor rural poderá continuar sem grandes ameaças seu programa de plantar e criar, tanto para o Brasil como para o Mundo.

Porém, o vírus não é apenas uma ameaça para a saúde humana. As primeiras reações nas bolsas de valores e no câmbio alertam para efeitos laterais desse perigo. Trata-se do lado negativo da forte integração global das economias nacionais. Pois, a intensa interligação das cadeias produtivas que tem sido o maior motor do desenvolvimento do bem estar da humanidade mostra seu lado negativo na forte interdependência entre empresas, setores e países. E, conforme a lei dos vasos comunicantes, se algo muda de um lado surge o reflexo do outro, seja para melhorar ou piorar. Em todos os países, independentemente se fazem parte dos fortemente industrializados ou dos chamados países em desenvolvimento observamos efeitos negativos. Temos reclamações de fabricas que adotam férias coletivas por falta de peças, de congressos que são cancelados, bem como de restaurantes, hotéis e regiões de turismo que operam em ritmo reduzido ou até mesmo fechado.

Resta avaliar como esses transtornos podem afetar a produção rural de alimentos, bioenergia e produtos florestais no Brasil. Primeiro, diferente de outros bens de consumo ou serviços a comida é um produto de primeira necessidade. Mesmo com a redução da atividade econômica em geral e de demanda encolhida por apertos na renda das famílias a comida continua sempre o item principal na compra do mês. Contudo, dentro da oferta da alimentação existem mercadorias com diferentes elasticidades de preço. Isto quer dizer, carne de boi mais cara pode resultar numa redução da demanda, pois por se tratar de um chamado produto de luxo. Devemos lembrar que os Europeus consomem apenas a metade da carne bovina dos Brasileiros. No caso de outros produtos como pão, leite, arroz, etc. As famílias continuam comprando mesmo com preços mais altos. Ou seja, da parte da demanda por alimentos não haverá grande impacto de uma economia desacelerada em função de uma epidemia.

Mas existem outros elementos na equação da produção rural. Os insumos, importe alavancador da produtividade nos processos cada vez mais tecnificados, tendem a ficar mais caros, nomeadamente aqueles de origem chinesa. O transporte marítimo da grande maioria dos grãos e carnes pode sofrer atrasos e ficar mais honroso. Máquinas agrícolas cuja maioria depende de peças importadas podem postergar a entrega ao produtor e, finalmente, o câmbio pode favorecer ou prejudicar a gestão financeira na cadeia produtiva do agro.

Em resumo podemos ponderar que o efeito dessa epidemia e de outras que certamente surgirão no futuro tem um impacto líquido bastante moderado sobre a produção no campo.

Date

02 Mai 2020

Tags

Colunistas, Francisco Vila

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