Governar é Servir
Eduardo Riedel é produtor rural, biólogo com mestrado em zootecnia, pós-graduado em gestão de negócios e atual governador de Mato Grosso do Sul.

Destacou-se como presidente da Famasul e do Conselho Deliberativo do Sebrae, além de vice-presidente da CNA.
Reconhecido entre as personalidades mais influentes do agro brasileiro, é sócio da Sapé Agropastoril, empresa sediada em Maracaju - MS. Na gestão pública, comandou pastas estratégicas (secretarias de Governo e Infraestrutura) antes de vencer a primeira eleição que disputou, ao comando do Estado, em 2023.

Sua administração (aprovada por mais de 75% da população, em dezembro 2025) tem se destacado pelo equilíbrio fiscal, investimentos robustos e avanços em infraestrutura, saúde e modernização do estado.
Como a mentalidade de um produtor rural, habituado ao planejamento de longo prazo, à gestão de riscos climáticos e à inovação tecnológica no campo, moldou sua visão ao assumir a complexa administração de um Estado com o dinamismo de Mato Grosso do Sul? Quais princípios da porteira foram transpostos para o trabalho no Palácio?
Assim como no privado, na administração pública é essencial diagnosticar corretamente, planejar com rigor e ter equipe qualificada, com capacidade de operacionalização. Depois, dedo no pulso – o monitoramento de cada etapa, dos indicadores e dos resultados são tarefas diárias. No Estado a responsabilidade fiscal é um dos nossos principais fundamentos, para permitir que todo o resto aconteça e funcione bem. É como na fazenda: é preciso cuidar dos custos sempre e garantir a margem. No poder público, a gente cuida do gasto para garantir o investimento que alavanca a transformação, nos diferentes cenários cotidianos.

Sua experiência como líder de entidades como a Famasul e a CNA exigiu a rara capacidade de construir consenso entre interesses diversos. De que forma essa habilidade de articulação e representação do setor produtivo se tornou um pilar indispensável para conduzir projetos estratégicos de governo, como a Rota Bioceânica e a diversificação da matriz econômica do MS?
A conciliação e negociação são chaves nesse processo. Mapear e entender a relevância das demandas, os seus atores, suas expectativas com cada projeto e, a partir daí buscar fazer com que o estado seja o grande ativador do desenvolvimento.
Para isso é necessário haver capacidade de ouvir, compreender os anseios e, a partir disso, atuar de forma coletiva, para que o máximo de segmentos produtivos e pessoas possam se beneficiar. Um dos grandes focos dos nossos projetos é o crescimento que reduz a desigualdade estrutural, conectando todas as secretarias em prol de vários projetos, de forma coordenada, estratégica, com olhar no longo prazo e nas conquistas que isso acarretará ao estado.
Mato Grosso do Sul se consolidou como uma locomotiva do desenvolvimento nacional. Na sua visão de gestor, quais são os pilares estratégicos inegociáveis para garantir que este crescimento seja perene, sustentável e inclusivo ao longo das próximas décadas? Como identifica e forma jovens líderes para ajudar nesses projetos?
Nosso estado cresceu mais de 14% em 2023, mais de 4x a média nacional, de acordo com o IBGE. Em 2025, de acordo com o Banco do Brasil, o agro de MS cresceu mais de 17%, liderando o crescimento do setor no País.
Precisamos garantir que esses índices não sejam um suspiro de desenvolvimento e, para isso, é estratégico que o estado fomente projetos que estejam alinhados as agendas estratégicas nacionais e globais, proporcionando que MS participe dos mercados e, mais do que isso, faça parte da solução de problemas que são de todo o mundo, como a segurança alimentar e a transição energética.
Se olharmos pros setores que mais cresceram no estado nos últimos anos, onde foi alocado o capital privado investido e, onde o estado investiu para garantir infraestrutura, serviços públicos e competitividade, veremos que existe uma convergência estratégica clara em curso, que garante o desenvolvimento de longo prazo do estado, sua participação na agenda do clima e o cuidado com os recursos naturais.

É notório seu dinamismo e sua presença constante em todos os cantos do MS, mantendo contato direto com as bases. De onde provém essa energia inesgotável para a atuação hands-on e como essa capilaridade política e humana, que o mantém conectado às circunstâncias de cada município, se traduz em decisões concretas e mais assertivas de governo?
Gerir o estado é tarefa complexa, porque é preciso lidar com diferentes realidades e demandas, considerando o grau de desenvolvimento de cada região e suas cidades. Somos, essencialmente, um governo municipalista, não por discurso político de ocasião, mas por convicção.
Criamos uma inversão de agenda, para que o processo de desenvolvimento se horizontalizasse e perdesse aquela verticalidade tradicional, onde o estado onipresente decide tudo sem ouvir ninguém.
Temos um governo presente, próximo, solidário, que trabalha em parceria para lidar com os desafios de cada município. Nossa visão é que o verdadeiro desenvolvimento só acontece assim, quando ele alcança a todos, sem deixar ninguém para trás. E fazemos isso de forma transversal, ou seja, conectando as diversas estruturas de governo em prol de um único objetivo.

Além dos impressionantes indicadores econômicos (PIB, exportações), qual é a sua maior ambição no campo social e humano para o desenvolvimento do MS? Contando com uma alta aprovação popular, o que o Senhor busca deixar como legado pessoal para as futuras gerações em termos de qualidade de vida e oportunidades?
Se precisar escolher só um, sem dúvida é eliminar a pobreza extrema no estado. Quando se fala do legado de um governador, a discussão normalmente fica no entorno da infraestrutura, das grandes obras.
Nesse campo, continuamos atuando e empregando uma parte significativa do nosso orçamento.
Mas meu legado é entregar um estado que no todo se posiciona em outro patamar.
Um estado grande, não em tamanho. Conhecido no brasil e fora dele por sua competitividade, pela capacidade de crescer, pelos seus ativos ambientais, mas acima de tudo por cuidar das pessoas. Minha grande meta no final da gestão é criar oportunidades, para erradicar a pobreza extrema no estado e melhorar a vida das pessoas.
E já estamos chegando lá. Temos uma taxa muito pequena de pobreza extrema (2%) e somos o estado líder em mobilidade social – é onde há mais oportunidades para as pessoas crescerem, melhorarem de vida.
MS abriga ecossistemas vitais e mundialmente únicos, como o Pantanal e o Cerrado, ao mesmo tempo que lidera no agronegócio. Como seu background de produtor rural ajuda na busca do delicado equilíbrio entre a expansão econômica e o compromisso irrestrito com a conservação e o desenvolvimento sustentável desses biomas?
Não consigo enxergar outra forma de funcionamento das coisas em um país como o Brasil. Tenho até dificuldade de entender o antagonismo forçado que se criou entre a produção e a preservação. Nosso país tem que produzir, melhorar a vida das pessoas. E não há outro jeito de fazer isso senão cuidando dos recursos naturais, essenciais à vida e à produção.
No Brasil, existe mais área preservada dentro das propriedades rurais em forma de reserva legal, APP e remanescentes, do que o somatório de unidades de conservação e terras indígenas.
Esse discurso que separa a produção da conservação é vazio. Nosso estado tem o bioma mais preservado do planeta, o Pantanal, um dos maiores redutos de produção pecuária do país. Acho que isso fala mais do que qualquer coisa. Por tudo isso, desde o começo, colocamos as duas áreas na mesma Pasta – meio ambiente e produção, para que caminhassem juntas, como elos de uma mesma e preciosa engrenagem, de maneira que possamos conciliar, de fato, desenvolvimento e sustentabilidade.
Seu governo desfruta de uma alta aprovação da população, um ativo raro na política contemporânea. Em sua análise, qual é o fator central que mais ressoa com os cidadãos – a transparência na gestão, a entrega de obras, ou a proximidade política? E quais mecanismos o Senhor utiliza para garantir que esse capital social seja resiliente e duradouro?
Acredito que é um somatório de fatores que produz esse resultado. E dentro de cada grupo e perfil da sociedade, um fator é mais ou menos percebido que o outro. Mas entendo que vivemos um momento no Brasil em que se busca o profissionalismo na política, a gestão, o trabalho árduo e dedicado e não o discurso fácil.
A polarização que vivemos é um equívoco que custa caro para o nosso país, porque faz a agenda real do Brasil, do dia a dia das pessoas, ficar de lado. Aqui no estado a gente não se permite esquecer dessa agenda nenhum dia sequer. As pessoas querem mais qualidade de vida, querem oportunidades, querem que a mão do estado alcance-as quando necessário e não estão nem aí pra essa disputa polarizada, e muitas vezes medíocre, que virou o discurso político.
Acho que esse nosso olhar pra realidade, pra vida das pessoas, tem sido parte importante nessa avaliação positiva. Independente da questões político-partidárias, temos um plano de governo, testado e aprovado nas urnas, que baliza a gestão e toda entrega.
Com a emergência da Rota Bioceânica e o foco global em recursos naturais, Mato Grosso do Sul assume uma posição geopolítica central. Olhando para o futuro, qual deve ser o papel estratégico do MS no debate nacional sobre o desenvolvimento sustentável, a logística continental e o posicionamento do Brasil no cenário internacional?
Quem olha MS de longe pode achar que somos um estado pequeno no centro-oeste brasileiro.
Mas na verdade somos o único estado brasileiro que faz fronteira com outros 5 estados e mais 2 países. Estamos absolutamente no centro da América do Sul, com capacidade de integrar os oceanos pacífico e atlântico, um sonho que está se tornando realidade já em 2026.
Não bastasse isso, temos um dos maiores ativos ambientais do país e estamos nos organizando para que esse ativo seja valorado e remunerado, convertendo-se também em riqueza para as pessoas. Acho que temos muito a contribuir com o Brasil e com o mundo nas agendas da segurança alimentar e da transição energética, buscando um caminho de desenvolvimento mais sustentável, tendo sempre a clareza que o papel do poder público é pavimentar o caminho e deixar que as pessoas e as empresas atuem e gerem riqueza, ajudando quem mais precisa.
Acreditamos na redução da desigualdade como projeto de desenvolvimento, no verde como valor e na liberdade econômica como compromisso.

Por Francisco Vila

