Perfil Cases

Entrevista com Julio Toledo Piza

Filho de produtor rural com importante função no mercado financeiro.

Sempre com interesse para a leitura e em compreender o mundo, formou-se em Engenharia Agronômica na ESALQ . Trabalhou como sócio-gerente na fazenda da família durante oito anos para, a seguir, completar sua formação com um mestrado de dois anos em business na famosa Columbia University de Nova York.
Com esta bagagem, e para atuar num ambiente mais amplo, voltou ao Brasil para, durante seis anos, exercer funções em diversos segmentos da economia na MacKenzie Internacional, uma das mais conceituadas empresas mundiais de consultoria. Combinando a experiência do agro com a visão internacional e dos mercados financeiros tornou-se CEO da BrasilAgro que criou com alguns amigos usando um modelo inovador de financiamento da Bolsa. Retirou-se da gestão diária da empresa que se tornou uma das maiores operadoras de terras no Brasil para assumir funções de conselheiro em importantes companhias nacionais e estrangeiras, bem como em instituições. Foi diretor da Sociedade Rural Brasileiro, continua proprietário de um dos restaurantes mais badalados de São Paulo e dedica importe parte do seu tempo para a família e a leitura. 

Em entrevista a Perfil, Julio Toledo Piza fala da sua ligação com o agro, enfatiza a construção da sua carreira. Menciona também que o Brasil é o berço da criação de uma quantidade impressionante de ecossistemas, de inovação e startups ligadas ao setor.


Quando nasceu, o Brasil importou 30% da sua comida. Hoje o País exporta 30% da produção alimentar. Como está enxergando a participação absoluta e relativa do Brasil no mercado mundial?

Uma das grandes histórias de sucesso do Brasil, certamente o agronegócio é o setor mais bem sucedido no Brasil nos últimos 25 anos. Do ponto de vista da produção estamos muito bem posicionados para continuar crescendo de forma absoluta e relativa. O grande desafio é lidar com as consequências desta liderança, como por exemplo a importância geopolítica, consistência da oferta, qualidade dos produtos, imagem sócio-ambiental (real e percebida) e dependência de alguns grandes compradores entre outros fatores. O Brasil tem avançado na gestão desses desafios, mas ainda temos um longo caminho.

O avanço exponencial de todas as tecnologias - desde a genética até os métodos de produção e os aplicativos comerciais - favorece ou limita o crescimento do setor composto por 5 milhões de proprietários rurais. Qual o impacto nos produtores de menor dimensão?

Sem dúvida, a tecnologia fomenta o crescimento do setor. O Brasil tem estado na liderança do crescimento da produtividade total dos fatores de produção (terra, capital e trabalho) e até por isso toda a cadeia do agro é muito aberta a aceitar novas tecnologias. Portanto, o impacto por aqui será ainda mais positivo. O Brasil, inclusive, tem sido o berço de criação de uma quantidade impressionante de ecosistemas de inovação e startups ligadas ao setor. Não acredito que a tecnologia favoreça ou não pequenos ou grandes produtores, ela na verdade tem impactos muito distintos em cada uma das cadeias de produção. Se algumas novas tecnologias podem favorecer o ganho de escala para a produção de commodities, outras fomentam a formação de mercados mais eficientes em produtos de nicho. Talvez o grande impacto seja a mudança muito veloz de paradigmas de produção, comercialização, financiamento, organização. Como em qualquer outro setor, os pequenos produtores são sempre pressionados. A solução sempre é buscar os espaços sem competição com os grandes. Felizmente o agronegócio possui vários nichos de atuação que podem favorecer os pequenos, e a tecnologia está criando ou aperfeiçoando vários outros. Ja existem hoje, por exemplo, uma serie de novas empresas que se propõem a criar “marketplaces” que conectam produtores a consumidores. Uma excelente oportunidade que não existia antes e que abre um espaço enorme para produtos de nicho que antes tinha uma comercialização muito complexa. O paradigma da necessidade do grande varejo para chegar ao consumidor está mudando.

Focando agora em sua trajetória como filho de um empresário de destaque, com formação de universidades de renome no Brasil e no estrangeiro e abrangendo atividades como consultoria internacional, criação de uma empresa líder do agronegócio de vanguarda e conselheiro de diversas associações de companhias, como construiu sua trajetória?

Nunca imaginei que estaria fazendo o que faço hoje; nunca fiz um master plan da minha vida. Tudo começou com a decisão de fazer engenharia agronômica para trabalhar nas fazendas da família, daí em diante fui seguindo os passos que me pareciam os mais interessantes. Hoje refletindo sobre como foi minha carreira vejo que a característica mais marcante foi um questionamento constante sobre o que eu estava fazendo. Será que estou evoluindo? Sou um profissional hoje melhor do que era antes? Este tipo de reflexão sempre me deixou inquieto e nunca tive o menor receio de mudar sempre que me senti acomodado na zona de conforto. Foi assim quando deixei a fazenda para ir estudar nos EUA e depois trabalhar na McKinsey pois queria aprender mais sobre administração e finanças ou quando voltei para o Agro para trazer conceitos de gestão mais atualizados. A decisão de não ser mais CEO da Brasilagro e ter mais tempo para empreender, investir e ser conselheiro também segue a mesma lógica. Importante ressaltar também que foram decisões tomadas com tranquilidade e ponderadas por algum tempo para diminuir os ruídos de curto prazo e permitir o fechamento de ciclos. Porém, a partir do momento que eu tomo uma decisão, a implementação é imediata.

Quem considera seu principal mentor, entre pessoas vivas e grandes pensadores da história humana, sendo que você passa um bom tempo com a leitura de obras clássicas?

Tive o privilégio de conviver na vida familiar e profissional com pessoas muito interessantes e que me ensinaram muito. Apesar de não ver um mentor único, enxergo influências de todas essas pessoas com que convivi na maneira como encaro a vida. Me vejo como um liberal no sentido clássico da definição e por isso tendo a apreciar e concordar com pensadores ligados a este movimento: Locke, Bastiat, Ayn Rand, Mises, Friedman… Acredito que o indivíduo é o motor do desenvolvimento e que nós sempre devemos estar no comando da nossa vida.

Se pudesse voltar para a idade de estudante na qual se tomam as decisões sobre a formação profissional e a definição do caminho a percorrer, qual seria sua escolha nesse novo mundo?

Acho importante olhar o passado para destilar aprendizados, eu sistematicamente critico a minha performance passada, mas acho que faz parte do processo de desenvolvimento. No entanto, é no presente que somos capazes de fazer algo e portanto prefiro olhar o passado para tomar melhores decisões agora.
Deixando de lado as carreiras técnicas que demandam um constante aprofundamento em temas específicos, acredito que as decisões sobre o caminho a seguir sempre devem levar a um aumento da opcionalidade, ou seja, buscar realizar escolhas que ampliem as possibilidades de caminhos futuros e não que reduzam essas possibilidades. Sempre procurei caminhos que aumentavam minha exposição a pessoas e desafios distintos, acho que neste mundo cada vez mais complexo e incerto manter as opções tem um valor cada vez maior. Sigo aplicando o mesmo princípio até hoje quando, por exemplo, decido se vou aceitar uma nova oportunidade de conselheiro em uma empresa: vou desenvolver alguma habilidade nova? Vou expandir meu círculo de relacionamentos? Vou conhecer e conviver com pessoas que me desafiam, que me incentivam a continuar aprendendo?

Como conselheiro de grandes empreendimentos, proprietário de restaurantes, investidor no mercado financeiro e, no momento, criador de um novo modelo de frigorífico, como consegue combinar todas essas funções dentro dessa rotina, a vida pessoal e sua exemplar dedicação à família? Como organiza seu dia?

Fico muito feliz que transmito a ideia de organização, o que não é necessariamente verdade. Eu gosto de assuntos diversos e de interagir com pessoas de background distintos, portanto esta variedade de atuações me agrada, mas acho que a chave é escolher as pessoas certas para tocar cada uma das operações no dia a dia e saber o nível de detalhe adequado que eu devo dedicar em cada situação. Tenho algumas regras básicas também, que procuro seguir como: bloquear pedaços da agenda para poder refletir ou para acomodar encontros não previstos, marcar encontros para manter conexões ativas, não viajar de finais de semana para poder ficar com a família, só ando de táxi em São Paulo para poder trabalhar durante a locomoção. Finalmente a tecnologia tem sido um grande aliado para poder fazer mais com menos.

Qual considera um equilíbrio saudável entre a incorporação constante de novas tecnologias e conhecimentos e a reflexão sobre os ensinamentos da cultura clássica. Além do bem divulgado equilibrio trabalho-vida pessoal, o balanceamento entre o futuro e os ensinamentos do passado? Promover essa visão é responsabilidade da escola ou dos pais?

Na minha experiência, o desafio tem sido gerenciar a ansiedade, o tal do FOMO (“fear of missing out” ou medo de ficar de fora). Somos bombardeados por dados, relatórios, estórias de novas empresas, novas soluções. Pelo menos em mim, isso gera uma sensação que estou ficando para trás e estarei obsoleto semana que vem. Manter-se atualizado é fundamental e aqui voltam os pontos de sair da zona de conforto e buscar novas conexões e experiências. As novas conexões e empresas que me envolvo tem sido uma excepcional fonte de atualização do que está acontecendo de novo. Como já falei antes, uma boa dose de questionamento é muito bom, mas sem exageros. Acho que a tecnologia não deve ser vista como um fim em si mesmo, mas como uma ferramenta para atingir seus objetivos (pessoais ou empresariais). Não podemos desprezar as novidades, mas também não devemos nos afogar nelas. Gosto de pensar que os pais e o ambiente familiar são os grandes incentivadores desta discussão, inclusive muito pelo exemplo. Um estudo feito para tentar entender a diferença de performance em alunos do sistema público de ensino em Chicago apontou uma correlação muito forte entre notas altas e a presença de livros/biblioteca em casa. Ou seja, famílias com bons hábitos de leitura naturalmente incentivam os filhos a estudarem mais. Obviamente, a escola tem um papel fundamental no ensino, mas acho que o desenvolvimento começa em casa.

Quais considera os talentos principais para jovens profissionais perante as incertezas do Mundo VUCA?

Falei acima da opcionalidade, que significa avaliar as oportunidades com uma visão de um pouco mais longo prazo. Ou seja, controle da ansiedade e muita paciência. Vejo os jovens muito afoitos pela próxima promoção. Além disso, acho muito importante a dedicação. Muitas vezes a vontade de fazer é mais importante que talento e/ou conhecimento. Muitos anos atrás eu era o sócio responsável pelo recrutamento de analistas na McKinsey e dado o tempo escasso para as entrevistas, a lógica sempre foi focar em muito poucas universidades bastante conceituadas. Apesar de correto do ponto de vista de recursos, achava que faltava algo e criamos uma regra nova. Se algum aluno, não importando a universidade, mostrasse um interesse muito grande e insistisse bastante, nós iriamos chama-lo para o processo seletivo. Outro ponto que acho relevante é a capacidade de reconhecer e apreciar pessoas com talentos diferentes dos nossos. Temos uma tendência a valorizar pessoas com habilidades parecidas com as nossas, essa tendencia leva, por exemplo, a formação de times muitos bons em alguns aspectos, mas com severas deficiências em outros. Apreciar e valorizar pessoas com habilidades, backgrounds e visões distintas é fundamental no mundo VUCA.

 


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“Acredito que o indivíduo é o motor do desenvolvimento e que nós sempre devemos estar no comando da nossa vida.”

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