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Entrevista com Carla de Freitas - Por Francisco Vila

Mulheres, a nova força no Agro

Carla de Freitas, nascida em Maringá-PR, passou a maior parte da juventude em São Paulo e Campo Grande, e após casar mudou-se para Vilhena-RO em 1981.

O pai foi um dos pioneiros que transformaram aquela região num território de grande produção agropecuária.

Enquanto criou os seus três filhos abriu diversas lojas atendendo a sua vocação empreendedora.

Com a morte do pai (1996), assumiu uma grande fazenda herdada por ela e as duas irmãs.

Desde o início procurou apoio dos melhores consultores para transformar a propriedade num centro de tecnologia avançada.

O lançamento nacional do Nelore Natural (2001) e a antecipação de outras tendências de modernização, como integração-lavoura-pecuária, confinamento e armazenamento na fazenda,  somente confirmaram a dinâmica dessa empresária rural visionária.

Convites para assumir conselhos em entidades de classe e gravação de entrevistas e reportagens sobre sua maneira de atuar no agronegócio moderno complementaram sua incansável procura por informações de ponta.

Foi co-fundadora e primeira presidente do Núcleo Feminino do Agronegócio (NFA).

Adquiriu conhecimento extra ao acompanhar o atual marido, Prof. Roberto Rodrigues, que presidiou entidades nacionais e internacionais de cooperativas, além de ter contribuído para a expansão do setor como Ministro de Agricultura do governo brasileiro (2003) -(2006). Busca inspiração em visitas ao exterior, que ela compartilha com a família, colegas e sua equipe da fazenda, onde já trabalha com um de seus filhos. Com todas essas tarefas e trabalhos em Rondônia e São Paulo, ela ainda dedica tempo aos seus netos, para assegurar a manutenção do legado da família. Segue se atualizando, realizando neste momento um MBA em Gestão do Agronegócio pela FGV.



Casou cedo com 19 anos e teve três filhos que se formaram em medicina e zootecnia em Ribeirão Preto.

Como conseguiu organizar sua vida em ser ao mesmo tempo uma boa mãe no estado de São Paulo e uma gestora eficiente que orienta mais de 75 colaboradores na vida rural de Rondônia?

Além dos três filhos já criados, tenho três netos que me dão a certeza da continuidade da vida. E minha maior preocupação é incentiva-los a continuar com os valores que são: honestidade, lealdade e amor à família, os mesmos que recebi dos meus antepassados, e os quais quero repassar para meus sucessores.

Graças a meu pai e minha mãe, que sempre nortearam minha formação e visão sobre a vida, consegui superar obstáculos e preconceitos e seguir meu caminho acreditando naquilo que foi deixado por eles. Tenho a preocupação de deixar um legado, uma visão de mundo com sustentabilidade e igualdade e desta forma tornar minha empresa eficiente, sustentável, acreditando em pessoas e projetos, no futuro do Brasil, dos meus filhos e netos e dos nossos colaboradores.Tenho como aliada a tecnologia digital para gerenciar à distancia desde que fui morar em Ribeirão Preto em 2001, quando meus filhos iniciaram a formação acadêmica, e até hoje mantenho uma rotina de estar em Rondônia periodicamente e acompanhar bem de perto toda movimentação da empresa. Acredito em conhecimento, trabalho e valores.


Desde adolescente seu pai lhe conferiu a tarefa de cuidar do dinheiro e da família em Campo Grande, enquanto ele acompanhado por sua mãe, construiu o enorme patrimônio na nova fronteira do agro. Será que foi essa responsabilidade para gerenciar o dia a dia das suas duas irmãs que pode ser considerada a melhor escola da vida e, assim, a explicação para seu sucesso como empresária?

Penso que é um conjunto de valores que norteiam a formação de um ser humano, e foi graças a estes valores que recebi dos meus pais, que pautei minha vida sendo estimulada a ter responsabilidade muito jovem, cuidando da administração da casa, das minhas irmãs, e isto me deu maturidade e equilíbrio para a vida empresarial.


Quem pesquisa seu nome no Google encontra frases como ‘Maior pecuarista no sul da Rondônia’, ´Pioneira no lançamento nacional do Nelore Verde’ ou ‘Liderança feminina do agronegócio’. Conte um pouco como foi sua caminhada do Sul para a Amazônia trabalhando em Rondônia e vivendo em São Paulo.

Na época que comecei a trabalhar na atividade rural, poucas mulheres estavam à frente das suas propriedades, e isto causava um certo questionamento. Hoje muitas mulheres executam a atividade com brilhantismo, tanto em propriedades rurais, como em outras cadeias do Agronegócio. Fui uma das pioneiras, não porque eu almejava,mas porque não tive escolhas. Tive que assumir esta posição com a morte do meu pai para não deixar seu legado se perder depois de tantos sacrifícios que ele e minha mãe haviam enfrentado. Fui ensinada a ter um olhar de paixão e de responsabilidade pelo trabalho e pelos negócios.


Outra curiosidade é saber como você passou de proprietária de lojas para pecuarista de vanguarda e recentemente também para a agricultura?

Comecei a trabalhar no comércio em 1981 quando cheguei em Rondonia, e meu primeiro marido, para desenvolver sua atividade de oftalmologista, precisava que eu abrisse a primeira loja. Consegui ao longo dos anos abrir outras, fiz curso de qualidade total no SEBRAE, busquei trazer inovações e qualificar pessoas que estavam comigo. Em 1996, com a morte do meu pai, precisei mergulhar profundamente nos negócios da família e aprender a trabalhar na administração de fazendas de pecuária. Como já estava envolvida na gestão das lojas, apliquei meu conhecimento para os negócios deixados pelo meu pai. A migração para a agricultura foi uma necessidade que fui observando no desenvolvimento da pecuária no Brasil. Com a integração-lavoura-pecuária-floresta (ILPF), e outras novas tecnologias foram sendo incorporadas as fazendas modernas do Agronegócio e nossa empresa teve que se adaptar a isso Foi gradativo e modernizante e hoje buscamos introduzir outras ferramentas de gestão na empresa. Nosso lema sempre foi Trabalho, persistência, amor ao que se faz, resiliência, determinação e disciplina, que foi o que motivou a todos para esta nova etapa da jornada que agora esta voltada a implantação da sucessão familiar que é outro tema importante para a conciliação da empresa e a família.


Como se não bastasse a vida agitada de fazendeira, conselheira do Novilho Precoce, da FIESP e da Sociedade Rural Brasileira ainda fundou com algumas colegas o Núcleo Feminino do Agronegócio. Como enxerga hoje o papel da mulher no comando de fazendas?

A mulher tem sido muito mais aceita pela sociedade em todas as atividades, onde o seu papel sempre foi relevante e importante, porém pouco valorizado. As mudanças atuais e futuras que vem acontecendo no mundo trarão para a mulher as mesmas condições dos homens para qualquer função nas empresas e instituições, o que já vem acontecendo naturalmente. As mulheres estão cada vez mais engajadas em busca de profissões que antes eram predominantemente masculinas, mas graças a suas capacidades e habilidades para liderança, vêm ocupando mais espaços, não apenas no mundo agro como em todos os setores. Observando as universidades e cursos voltados ao Agronegócio verificamos que as mulheres em geral são maioria e demostram uma bela capacidade para lidar com os inúmeros obstáculos que a evolução da agricultura 4.0 e a inteligência artificial impõem neste momento, além de temas como gestão de pessoas, de negociação comercial e a gestão em propriedades rurais, e outros onde a inteligência emocional e a habilidade humana pede criatividade e sensibilidade.


Qual é a força motivadora que transforma você numa aprendiz eterna? Além de evoluir constantemente como consultora na complexa tarefa de agropecuarista você não para de estudar arte, se formar em designer, começou a produção de jóias, aprendeu línguas e agora até se inscreveu num curso de MBA da Fundação Getúlio Vargas sobre gestão. Não acha que seus colegas devem estar com a dúvida se você veio para aprender ou para ensinar?

Uma incrível lição que aprendi, foi em uma visita na minha propriedade rural, em meados de 2000, de um grande homem, Dr. Fernando Penteado Cardoso, que na época tinha quase 80 anos e atualmente está com seus quase 105 anos. A visita me causou um grande espanto pois afinal, ele era um líder, um homem respeitado, um gestor magnifico e estava ali querendo aprender algo diferente e novo, o que me fez refletir e me questionar sobre sua presença. Perguntei muito curiosa o motivo da sua visita e ele me respondeu que estava se reciclando. Percebi que muitas vezes achamos que sabemos tudo, porém esquecemos que nós, seres humanos, temos uma capacidade infinita de aprender e de viver intensamente tudo que o conhecimento pode proporcionar e desta forma, deveríamos ter a obrigação da busca pelo saber, pelo novo, de reciclar,de reinventar e de usar nossa criatividade. As próximas gerações irão competir com máquinas que nunca erram, mas que não serão capazes de criar e ter imaginação (ainda).

 


Acompanhando seu marido Prof. Roberto Rodrigues, que foi ministro da agricultura, em suas muitas viagens ao exterior, como compara o agro dos outros países com a realidade e o potencial no Brasil?

Somos um povo produto de uma miscigenação onde várias culturas nos moldaram e nos tornaram no que somos hoje, um produtor rural brasileiro, que mesmo com tantas dificuldades e contradições, está conseguindo produzir alimentos de forma competitiva. Antes éramos importadores de comida e hoje estamos exportando e batendo recordes sucessivos, porém o que devemos levar em conta, é que tudo está acontecendo muito rápido e precisaremos nos adaptar aos novos mercados e demandas dos consumidores e demostrar ao mundo que fazemos um produto sustentável. Não adianta brigarmos com as cobranças dos outros países e sim, devemos é tratar de nos adaptar às enormes mudanças que estão ocorrendo no mundo. Produzimos para vender e devemos entender o que os compradores querem. Se me pedirem para parar de produzir carne e plantar abobrinha, farei com o mesmo entusiasmo e rigor que pratico atualmente. Somos produtores de alimento, então, contribuímos para a paz do mundo, como prega meu marido e mentor sistematicamente Roberto Rodrigues: “devemos produzir alimentos, pois onde houver fome não haverá paz”.

Dois dos seus filhos construíram atividades bem sucedidas na medicina e o do meio se formou em zootecnia assumindo agora, aos poucos, a gestão das fazendas da família. Ele escolheu o curso influenciado pela mãe? Como organiza a passagem do bastão para a próxima geração?

Meus filhos sempre foram estimulados a escolher o que os guiassem à felicidade, pois se você faz algo com a alma, você faz bem! Seguiram os exemplos dos avós, dos pais, da nossa formação como família. Conviveram vendo todos trabalharem duro e com valores claros, e hoje observo que eles tentam reproduzir estes ensinamentos aos seus filhos, onde a felicidade, a justiça e o amor norteiam a vida.


OLHOS:

“Fui ensinada a ter um olhar de paixão e de responsabilidade pelo trabalho e pelos negócios”.

 

“Minha maior preocupação é incentivar meus filhos e netos a continuar com os valores que são: honestidade, lealdade e amor à família, os mesmosque recebi dos meus antepassados, e os quais quero repassar para meus sucessores”.

 


Fotos: Divulgação

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