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Almado Diário de Viagens - Cidade-Eros

Con las ciudades, es como con los sueños: todo lo imaginable se puede soñar, pero incluso el sueño más inesperado es un rebus que oculta un deseo o, al revés, un miedo.

Las ciudades, como los sueños, están hechas de deseos y miedos, incluso si el hilo de su discurso es secreto, sus reglas son absurdas, sus perspectivas son engañosas y todo oculta algo más.

Italo Calvino


Ouvir ao som de Adonde van los Pájaros, Luciano Supervielle ou Mundo Abisal, Jorge Drexler

Pela ótica do mergulhador a cidade submersa é uma dádiva. Pela ótica do pássaro uma impossibilidade.

Cidades que foram tombadas pelas águas oferecem certo fascínio. Pelo mistério, sim, quase sempre pelo mistério que envolve sua história, sua civilização, seu cotidiano, seus artefatos, seus movimentos, seus problemas, sua fatalidade.

O que faz uma cidade submergir é resultado ou de catástrofes naturais ou do próprio descaso humano. Algumas das mais conhecidas cidades submersas ficaram perdidas por séculos, como esse tipo de cidade escolhe ser.

De acordo com o documentário The Sunken City of the Pharaohs, uma das mais citadas fica a 32 km de Alexandria, no Egito.

Trata-se de Heracleion, uma espécie de Nova Iorque do mundo antigo que funcionava com um centro portuário, onde estava localizado o palácio da rainha egípcia Cleópatra e também uma imensa biblioteca com mais de meio milhão de papéis de papiro.

Fundada em 331a.C. por Alexandre, o Grande, a metrópole foi tombada pelas águas do Mar Mediterrâneo e por mais de mil e duzentos anos sarcófagos, estátuas, moedas de ouro, fragmentos do que teriam sido jardins reais e templos ficaram preservados no fundo do mar.

Suas ruínas foram encontradas por mergulhadores submarinos e arqueólogos liderados pelo francês Franck Goddio.

As cidades submersas não se resumem ao Egito, elas podem ser encontradas no Japão, na China, na Alemanha, na Rússia, na Argentina, na Itália, no Brasil, na Estônia, na Venezuela, em várias partes do mundo.

Despina

Em 2016, a arquiteta peruana e ilustradora autodidata Karina Puente desenvolveu um trabalho de capturar em tinta “As Cidades Invisíveis” de Italo Calvino. Nessa obra de 1972, o escritor italiano narra histórias de 55 cidades, todas com nomes de mulheres, descritas pelo viajante veneziano Marco Polo ao imperador Kublai Khan, o primeiro governante não chinês a governar a China e que esperava construir um império ideal a partir dos relatos de viagem.

A obra de Calvino é dividida em nove capítulos e as cidades em onze grupos ou temas: as cidades e a memória; as cidades e o desejo; as cidades e os símbolos; as cidades delgadas; as cidades e as trocas; as cidades e os olhos; as cidades e o nome; as cidades e os mortos; as cidades e o céu; as cidades contínuas; as cidades ocultas.

A cada cidade invisível encontramos inúmeros outras: cidades sonhadas, duplicadas, centrais, periféricas, inacabadas, suspensas, demolidas, enterradas, mortas, submersas.

Ao ler o livro para o filho de 4 anos, a arquiteta imaginou as cidades e, até o momento, 23 delas foram transferidas para a tela. O resultado desse projeto lindo e lúdico mostra a magia das metrópoles irreais, a materialização da arquitetura impossível de Calvino pela experimentação artística das ilustrações de Puente.

Valdrada

Nesse meu contato com o livro-mundo, enquanto intercambista nas terras irlandesas de Oscar Wilde e James Joyce, enquanto estrangeira em qualquer lugar, enquanto viajante de não-lugares, enquanto jornalista sem redação, a mim também me interessam as cidades, especialmente àquelas que naufragamos, que ocultamos, que imaginamos durante os processos de vida.

Àquelas que perdemos para que, talvez, alguém que nunca se espera as encontre como um mergulhador a desvendar o cenário de um crime, a penetrar nas camadas do passado e da memória; como um viajante a inventar roteiros, descobrir suas utopias e heterotopias; ou como um pássaro a espiar sua superfície e a pairar sobre um espaço que não pode ser morada. Para o pássaro, arqueólogo e escafandrista de outros templos, a cidade oculta sempre será uma cidade de passagem, uma cidade armadilha, uma cidade-medo, uma cidade-sonho.

O urbano guarda mais do que podemos saber e, esse tipo de cidade líquida tende a ser uma advertência ao futuro. Diz mais sobre lugares onde jamais devesse ser planejada e construída, por mais inevitável que seja para os que contêm a natureza do voo e desejam mergulhar.

 

 


Afani Carla Baruffi
Jornalista e Mestre em Letras

Créditos das fotos:
1 - Valdrada. Image © Karina Puente Frantzen
2 - Despina. Image © Karina Puente Frantzen

 

 

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