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Almado Diário de Viagens

Mialuce cara - “em parte/ alguma/ me sinto/ em casa”

Cada um tenta se salvar de alguma maneira. Como dizem por aí, quando nada acontece é porque talvez tudo já tenha acontecido.

Gosto de cartas. Pensando bem, elas já nascem isoladas... e permanecem. Gosto das histórias humanas que ali são contadas,à distância,at home, talvez também por essas pessoas que já não mais observo pela paisagem da janela de um vidro em deslocamento pelos diferentes países,onde também não posso mais depositar meus pés alegres e apaixonados pelo mundo.

Não sei vocês, eu sinto um prazer enorme em olhar o urbano e o rural quando faço uma viagem de ônibus ou de trem. Olhar para fora de mim tendo um recorteque me separa e me une daquilo quedificilmentepoderei tocar em sua totalidade. Olhar um alguém caminhando na rua, imaginar se gosta de flores, se está indo ao trabalho ou se está com problemas em casa... Como foi sua infância, quais são suas ambições, se faz terapia, se toma bons vinhos, se passa fome, se foi violado,se gosta de futebol, se tem preconceitos, se é bom em matemática, se discute política, se é mãe, se está chateado com algo, se já machucou alguém,se tem irmãos, se já escreveu alguma carta na vida.

Como eu disse, gosto de cartas pela pouca aglomeração que produzem... Por conterem uma espera nem sempre bonita ou fácil. Talvez angustiante, talvez de contrastes e às vezes luminosa.

"Sei comparsa alportone/In unvestitorosso/ per dirmiche sei fuoco/Che consuma e riaccende".
Você apareceu na porta / De vestido vermelho / para me dizer que você é fogo / Que consome e reacende.

Verão de 1946 no Brasil. Giuseppe Ungaretti (1888-1970) descreve o primeiro encontro que teve com Bruna Bianco, uma jovem que se aproxima de um dos maiores poetas italianos do século 20 para lhe mostrar alguns dos poemas por ela escritos. Primeiramente influenciado pelo simbolismo da França, por Baudelaire e Mallarmé, Ungáincorporou os procedimentos da vanguarda futurista, tornando-se um grande nome da poesia moderna.

Lettere a Bruna, Carta a Bruna. Por 50 anos as cartas trocadas entre Ungaretti e a então advogada aposentada foram guardadas em segredo. Uma relaçãotraduzida em quase quatrocentas correspondências, por um período de 3 anos, eque durou até as proximidades do ano de morte do poeta. Expressão da poesia, de vivências pessoais e de mundo, das dificuldades do existir,dos feitiços do amor, da fome pela linguagem, da beleza da prosa, da paisagem brasileira (o poeta morou no Brasil de 1937 a 1942, onde foi professor de literatura italiana na USP).

Mia luce cara, minha querida luz. Era assim que ele gostava de chamá-la. O teu antigo, por ter 52 anos a mais que ela, era nesse tom que o poeta assinava sua Alegria do Naufrágio doce ao imprimir sua despedida no isolamento amoroso que ambos nutriam.

Em tempos de coronavírus leio mais jornais, mais livros, leio letras de músicas, leio os espaços da minha casa física e espiritual. Leio e escrevo cartas já que elas também se distanciam e se isolam das mãos de seus remetentes. Algumas morrem com o tempo em gavetas ou dentro de livros ou ainda no corpo de quem as escreve ou de quem as recebe. Outras são salvas pra registrar que nada é seguro e permanente, mas que pode haver sempre uma querida luz a acalmar lamentos.

 

 


Afani Carla Baruffi

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